
História da SBEC
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VI Congresso Nacional de Estudos Clássicos e dos 20 anos da SBEC |
SBEC 20 ANOS: UMA HISTÓRIA
Zélia de Almeida Cardoso *
A idéia se concretizou e a SBEC está completando 20 anos! 1984-1987No início de 1984 foi divulgada nos meios acadêmicos a notícia de que se realizaria, em maio daquele ano, o I Congresso Nacional de Estudos Clássicos. Para a comunidade científica, voltada para as pesquisas sobre a Antigüidade, a informação não poderia ser mais auspiciosa. Afinal, depois de anos e anos de restrições, abria-se uma possibilidade para que os estudiosos do assunto se reunissem, assistindo a apresentações de trabalhos e participando de grupos de estudo, intercambiando-se, ao mesmo tempo, experiências e informes sobre as investigações em curso. E
o evento se realizou na data fixada. Em Belo Horizonte, promovido pelo
Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Letras da Universidade
Federal de Minas Gerais, cujo chefe, Prof. Jacyntho Lins Brandão, encabeçou
a Comissão Organizadora. “Uma
idéia, uma vez vestida de palavras, pula de seu quase nada e, puxando
novas idéias e novas palavras em diálogo, cria realidades”, disse
ele na “Apresentação” do Programa do Congresso, ao lembrar que
esse fenômeno havia acontecido “quando se falou, pela primeira vez,
em promover-se um encontro de cultura clássica” a fim de congregarem-se
professores, estudantes e pesquisadores de todo o país que estivessem,
naquele momento, trabalhando com a Antigüidade. Essas pessoas foram
contactadas e convidadas a participar do encontro. E a idéia se tornou
realidade. Tendo como eixo temático “O mito de Édipo”, o I Congresso Nacional de Estudos Clássicos se estendeu de 21 a 25 de maio de 1984, constando de conferências, palestras, comunicações, mesas-redondas e reuniões de grupos de trabalho. Presidiu à Sessão de Abertura o Prof. Dr. José Henrique Santos, Reitor da UFMG, e contou-se, nas sessões acadêmicas, com grande freqüência de estudantes e com a participação de pesquisadores da própria UFMG e, ainda, da FLM, da PUC-MG, da ESTEB-MG, do CSCJ-BH, do CPM, da FGV, da UFU, da UFOP, da USP, da UNESP, da UFRGS, da UFRJ, da UFF, da FFCLBH, da EGB. Dos trabalhos apresentados grande parte se filiou ao eixo temático, explorando o mito de Édipo, em seus diversos aspectos. Outros, porém, ou se ocuparam de mitos diferentes, ou abordaram assuntos paralelos, referentes à cultura antiga: o teatro clássico; a poesia greco-latina; temas históricos, sociais, filosóficos e jurídicos; a iconografia clássica; a herança dos antigos, o classicismo nas artes; as técnicas agrícolas romanas; a influência helênica no Novo Testamento; as línguas clássicas. Em horários alternativos foram exibidos filmes que exploravam temas de interesse geral; e o Èdipo Rei de Sófocles foi representado para os congressistas pelo Grupo Mineiro de Comédia, no Palácio das Artes. A profusão de trabalhos, apresentados e discutidos em debates acalorados, foi aproveitada na edição de dois volumes de anais: no primeiro, organizado por Jacyntho Lins Brandão e intitulado O enigma em Èdipo Rei e outros estudos de teatro antigo, foram coligidos os trabalhos sobre o mito de Édipo e sobre dramaturgia, em seus múltiplos aspectos; no segundo, organizado por Neiva Ferreira Pinto e Jacyntho Lins Brandão e intitulado Cultura clássica em debate, foram reunidos os demais trabalhos. Na Sessão Plenária, realizada no último dia do Congresso foi homologada a proposta de criação da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, a ser instalada oficialmente em julho de 1985, em Belo Horizonte, durante a 37a Reunião da SBPC, tendo sido indicada uma comissão que deveria tomar as medidas necessárias à organização da Sociedade e encarregar-se da redação provisória de seu Estatuto. Graças
ao apoio dos vários órgãos da UFMG e também da Secretaria de Cultura
e Turismo de Belo Horizonte, do CNPq, do Consulado da Itália em Belo
Horizonte, da Embaixada da Grécia, do Centro de Recursos Humanos “João
Pinheiro” e de várias entidades privadas, o I Congresso Nacional
de Estudos Clássicos se constituiu numa iniciativa promissora, revestindo-se
do mais completo êxito. Pesquisadores antes disseminados pelos quatro
cantos do país tiveram a oportunidade de encontrar-se e de conhecer
o trabalho de seus pares; o nível das apresentações mostrou a qualidade
das pesquisas; o número de alunos que participaram do evento – tanto
oriundos da UFMG como de algumas outras unidades universitárias do
país – revelou o interesse das gerações novas pelos estudos sobre
a Antigüidade; o gérmen de uma sociedade científica voltada para
tais estudos estava pronto para florescer e frutificar. Enquanto a Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC) estava ainda em organização, o Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Letras da UFMG passou a enviar periodicamente aos interessados, a partir de julho de 1984, o Boletim de Estudos Clássicos (BEC), um pequeno jornal xerocopiado, com informes do interesse dos pesquisadores: notícias sobre a vinda e a presença de professores visitantes, sobre publicações, cursos, semanas de estudos, descobertas arqueológicas. Em seu terceiro número, de fevereiro de 1985, o Boletim noticiou a abertura de inscrições para a 37a Reunião da SBPC, quando seria efetivamente fundada a Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos; no quarto, divulgou o Programa das atividades acadêmicas a serem então realizadas; no quinto, veiculou a Proposta do Estatuto da Sociedade, a ser discutida e votada durante a sessão de instalação. A fundação da SBEC ocorreu, como previsto, a 13 de julho de 1985, em meio a uma compacta programação, de que constaram conferências, mini-conferências, simpósios, sessões de comunicações, mesas-redondas e atividades artísticas que se estenderam por uma semana, de 10 a 17 de julho. Mais uma vez reuniram-se pesquisadores e docentes da UFMG, USP, UFRJ, UNESP, UFRGS e UFF que, além de participarem dos encontros técnicos e burocráticos que se anteciparam à fundação da Sociedade, apresentaram trabalhos acadêmicos do melhor nível. Fundada
a SBEC, foi votado e aprovado o Estatuto, de acordo com
o qual se caracterizou a Sociedade, estabelecendo-se seus objetivos
bem como os deveres dos sócios; foi eleita a primeira Diretoria e definida
a composição dos Conselhos Consultivo-Deliberativo e Fiscal;
acordou-se que a sede jurídica da SBEC
seria em Belo Horizonte, no Departamento de Letras Clássicas da Faculdade
de Letras da UFMG, e consideraram-se como sócios fundadores os docentes
e estudantes que estiveram presentes à assembléia de fundação, estendendo-se
o direito de pertencerem a essa categoria às pessoas que se associassem
à SBEC até 31 de dezembro de 1985. A primeira Diretoria ficou assim constituída:
Vice-Presidente: Donaldo Schüler (UFRGS); Secretário Geral: Jacyntho Lins Brandão (UFMG); Secretária Adjunta: Neiva Ferreira Pinto (UFMG); Tesoureira: Sílvia Damasceno Andrade de Moraes (UFRJ). Para que se assegurasse maior participação, representatividade e descentralização, foi proposta a criação de Subsecretarias Regionais (mais tarde chamadas Secretarias Regionais) que cobrissem as diferentes regiões do país, designando-se os Subsecretários, mas deixando-se a definição da competência dessas Subsecretarias para ser estabelecida oportunamente.
Após essas medidas, acertou-se que a primeira reunião da Sociedade,
bem como a primeira Assembléia Geral, seria realizada em Curitiba,
em julho de 1986, durante a 38a Reunião da SBPC, fixou-se
o valor da taxa de inscrição dos sócios e da anuidade e foi indicada
uma Comissão Editorial encarregada de organizar as normas que norteariam
a publicação de uma revista de estudos clássicos a ser editada pela
SBEC. No
primeiro ano de existência da Sociedade, várias medidas importantes
foram implementadas. O Boletim de Estudos Clássicos, que veiculava
informações de grande interesse para os sócios,
foi distribuído regularmente, de início sob a responsabilidade da
Secretaria Geral da SBEC; regulamentou-se o funcionamento das
oito Subsecretarias inicialmente criadas: NE1 (Paraíba, Pernambuco,
Rio Grande do Norte e Ceará), SE1 (Estado de Minas Gerais, exceto a
Zona da Mata e o Sul do Estado), SE2 (Zona da Mata e o Sul do Estado
de Minas Gerais), SE3 (Estado do Rio de Janeiro, exceto a Capital),
SE4 (cidade do Rio de Janeiro), SE5 (São Paulo), S1 (Rio Grande do
Sul e Santa Catarina) e S2 (Paraná); foram designados os primeiros
Subsecretários Regionais; foi criada a Comissão Nacional de Comunicações
da Sociedade, que se encarregaria da coordenação e da execução de
todos os serviços de comunicação em nível nacional, estabelecendo-se
que a publicação do Boletim de Estudos Clássicos
(BEC) passaria a ser da competência de tal Comissão; foi solicitada
e obtida a filiação da SBEC à SBPC; foi editado o primeiro
volume dos Anais do I Congresso Nacional de Estudos Clássicos.
As Subsecretarias Regionais, cada uma por sua vez, apoiaram iniciativas
já tradicionais em algumas universidades – como a Semana de Estudos
Clássicos, promovida pela UFRJ – e organizaram programações especiais
(semanas de estudos, seminários, colóquios), divulgadas pelo BEC
– foi o caso do Colóquio de Filosofia e Cultura Grega, promovido
pela SE1, do Seminário de Estudos Clássicos, organizado pela SE3,
em conjunto com a UFF, de um Ciclo de Palestras, proposto pela SE2,
em conjunto com a UFJF; do Simpósio “As formas do épico”, realizado
pela S1, em conjunto com a UFRGS, tendo os trabalhos apresentados em
tal Simpósio sido publicados em 1992 em coletânea organizada por Miriam
Barcellos Goettems e Myrna Bier Appel e intitulada As formas do épico,
da epopéia sânscrita à telenovela. No
início de 1986 foram divulgadas pelo BEC
– já agora impresso – as normas estabelecidas pela Comissão Editorial
para regulamentar o periódico científico que seria publicado pela
SBEC, foi designada a Comissão de Programa da 1a Reunião
Anual, a ser realizada em 1986, foram criadas mais duas Subsecretarias
Regionais – a NE2 (Bahia) e a CO1 (Brasília) – e concederam-se
os primeiros títulos de Sócio Honorário a personalidades destacadas
no campo dos estudos clássicos: o Pe. Milton Valente e o Prof. Heinrich
Adam Wilhelm Bunse, autores de importantes obras, já bastante conhecidas. De 14 a 15 de julho de 1986, durante a 38a Reunião Anual da SBPC, a SBEC realizou no campus da UFPR, em Curitiba, sua primeira Reunião Anual, prevista no Estatuto, mais uma vez apoiada pelo CNPq e pela UFMG e, recebendo na ocasião, apoio da Transbrasil. A programação apresentada foi bastante densa, constando, como nos dois encontros anteriormente mencionados, de conferências, mini-conferências, simpósios e sessões de comunicações. Os trabalhos apresentados focalizaram a filosofia na Grécia e em Roma, a palavra poética, os gêneros literários, a historiografia clássica, os mitos, a herança clássica, a leitura dos textos clássicos, aspectos da cultura da Índia, a conceituação do herói, a questão da origem dos santuários gregos, o modo de produção asiático. Fizeram-se representar no evento pesquisadores oriundos da USP, UFMG, UFRJ, UnB, UFF, PUC-RJ, UFRGS, UGF, PUC-RS e UNESP. Em horário específico realizou-se a primeira Assembléia Geral. Decidiu-se, na ocasião, que as Reuniões Anuais da SBEC, daí em diante, não mais seriam realizadas em conjunto com a da SBPC. A própria SBEC as promoveria, por meio das Subsecretarias Regionais, contando com a parceria de Universidades sediadas no local em que se realizasse a Reunião, o que não impediria a Sociedade de participar, com atividades específicas, das reuniões da SBPC. De cinco em cinco anos haveria um Congresso Nacional. Acertou-se que a Reunião de 1987 seria realizada em Belo Horizonte e o II Congresso Nacional de Estudos Clássicos em São Paulo, em 1989. Realizaram-se
na ocasião as reuniões estatutárias dos órgãos administrativos,
tendo o Conselho Consultivo-Deliberativo criado mais uma Subsecretaria
Regional, no Nordeste, a NE3, desmembrando-se o Estado do Rio Grande
do Norte dos demais que constituíam a NE1. Após
a Reunião Anual, as Subsecretarias Regionais continuaram a promover
encontros de estudos clássicos e a apoiar eventos organizados por universidades.
A SE1 realizou em Congonhas, em conjunto com a UFMG e com o apoio da
Prefeitura local, o I Congresso Estadual de Estudos Clássicos; a SE5
apoiou a I Semana de Estudos Clássicos, realizada pelo Centro de Estudos
Clássicos do ILCSE/UNESP, em Araraquara, cujo tema “Fedra-Hipólito:
a permanência de um mito clássico” deu também o título à coletânea
de trabalhos então apresentados, organizada por Maria Celeste Consolin
Dezotti e publicada em 1987; a SE4 apoiou a realização, pela UFRJ,
da VII Semana de Estudos Clássicos; a SE3, em conjunto com a UFF, promoveu
o II Seminário de Estudos Clássicos; a S1, em conjunto com a UFRGS,
responsabilizou-se pelo Ciclo de Palestras intitulado “O herói na
Antigüidade clássica e nos Quadrinhos” e pelo Seminário Internacional
“Atualidade do mito”, do qual participaram especialistas do país
e do exterior. Os trabalhos apresentados em tal Seminário foram publicados
em 1991 na coletânea Mito ontem e hoje, organizada por Donaldo
Schüler e Miriam Barcellos Goettens. Em
março de 1987 a Secretaria Geral da SBEC
criou o Serviço de Intercâmbio Científico (SIC) que substituiu
a Comissão Nacional de Comunicações e que teria o objetivo
de promover a cooperação entre especialistas e estudiosos da Antigüidade
Clássica por meio de três programas: a divulgação de monografias
em uma série de opúsculos denominados Textos de Cultura Clássica,
que já vinham sendo publicados; a publicação de bibliografias, sumários
de revistas e elencos de projetos de pesquisa, em uma série denominada
Intercâmbio; e, finalmente, a promoção de cursos suplementares
sobre temas clássicos. Preparava-se, nesse meio tempo, o primeiro número
de Classica, a revista brasileira de estudos clássicos que,
por exigência estatutária seria publicada pela SBEC. De
1987 a 1993 as Reuniões Anuais se realizaram normalmente, contemplando
sempre o conjunto de disciplinas que compõem os chamados Estudos Clássicos
(Línguas e Literaturas Clássicas, Arqueologia, Antropologia, História
Antiga, Filosofia) e atraindo pesquisadores e estudantes provenientes
de numerosas universidades do país. Em 1987, realizada em Belo Horizonte, a 2a Reunião Anual da SBEC contou, na Sessão de Abertura, com a especial participação da Profa. Dra. Maria Helena da Rocha Pereira, da Universidade de Coimbra, ficando a seu cargo a conferência inaugural. Consolidava-se o intercâmbio da SBEC com instituições internacionais, num profícuo trabalho de cooperação científica. O evento, apoiado pelo CNPq, pela UFMG , pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Recursos Humanos “João Pinheiro”, se caracterizou por organizar-se em sessões temáticas (Lingüística, Filosofia, Artes, História, Literatura, História da Ciência, Antropologia, Literatura e Filosofia Medieval, Arqueologia, Teatro, Mitologia, Mitologia e Religião); em horários específicos foram ministrados cursos destinados aos alunos, foi feito o lançamento de alguns livros e houve apresentações musicais e teatrais. Realizaram-se as reuniões administrativas, de Conselhos e Secretários Regionais, tendo sido criadas a Secretaria Regional NE4 (Ceará), desmembrada da NE1, e uma Seção Local em Santa Catarina. Criou-se também a Assessoria para Assuntos Internacionais, vinculada à Presidência, tendo a Profa. Dra. Haiganuch Sarian sido indicada para o cargo de Assessora. A Assembléia Geral recompôs os Conselhos, substituindo conselheiros com mandatos vencidos, conferiu títulos de Sócios Honorários aos professores Eudoro de Souza, da UnB, e Madre Maria da Eucaristia Danielou, da USU, homologou a inscrição de novos sócios, inclusive a de sócios correspondentes e institucionais e elegeu a segunda Diretoria da SBEC, que ficou assim constituída:
Vice-Presidente: Donaldo Schüler (UFRGS); Secretária Geral: Nely Maria Pessanha (UFRJ); Secretária Adjunta: M. Cristina Caldas F. Rocha (UFRJ/UGF); Tesoureira: Silvia Damasceno Andrade de Moraes (UFRJ). Posteriormente, como a Tesoureira pediu demissão, por motivos de ordem particular, foi indicada para ocupar o cargo vacante Marinete José Ribeiro de Oliveira Santana, da UFRJ. A partir de setembro de 1987, o BEC passou a ser da responsabilidade do Serviço de Intercâmbio Científico e foi anexada ao informativo a publicação Intercâmbio, até então autônoma. Pelas informações veiculadas pelo BEC os sócios da SBEC puderam continuar acompanhando o trabalho das Secretarias Regionais e suas realizações: a II Semana de Estudos Clássicos promovida pela Seção Local de Araraquara, o III Seminário de Estudos Clássicos, pela SE3; o Simpósio de História Antiga e Medieval, pela SE1 em conjunto com a UFMG; o curso de extensão “Cultura grega clássica”, pela S1. Os trabalhos apresentados nesse curso foram coligidos em livro (Cultura grega clássica), organizado por Loiva Otero Félix e Miriam Barcellos Goettems e publicado posteriormente. Zélia L.V. de Almeida Cardoso, sócia fundadora da SBEC, é professora livre-docente de Língua e Literatura Latina da USP e
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